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Wednesday, August 29, 2012

das gentes, gatos, computadores e máquinas de escrever bons pra cachorros

Trabalhei na TV Manchete em um período em que eles queriam fazer teledramaturgia. O diretor, então, me pediu que eu escrevesse uma novela. Eu não quis. Mas fiz algumas sinopses: Dona Beija (1986), Kananga do Japão (1989), Marquesa de Santos (1984). Eu dava as ideias e contratava os diretores. Contratei a Glória Perez, o Wilson Aguiar Filho (1941 – 1991)... Dava ideias, mas me recusava a escrever. Tinha preguiça. Mas a vida continua, tem um processo, uma dinâmica. O tempo foi passando, o casamento acabou e eu passei a amar cachorros. Eu detestava cachorros, mas depois acabei descobrindo neles uma porção de virtudes. Há um tempinho, fiz uma crônica na Folha de S. Paulo comparando o cão à máquina de escrever. O computador é o gato. Porque a máquina de escrever é fiel, como o cachorro. E o computador é independente, tem vida própria, como o gato. A máquina só faz o que você pede, já o computador apaga umas coisas, aparecem outras que você não quer. Aparece um Papai Noel tocando um sininho. Às vezes, eu estou fazendo uma coisa séria e vem aquele Papai Noel batendo o sininho. Quem botou aquele Papai Noel ali? Não sei, é vírus. Minha máquina de escrever nunca teve vírus. Envelheceu dignamente. Só que, por causa desse texto, recebi e-mails desaforados, dizendo que cachorros são poluidores e não servem para nada. E eu fiquei indignado porque, afinal de contas, amava a minha cachorra. Quando voltei a escrever, dediquei meu livro à minha cachorra. Comecei quando ela ficou doente. Eu estava começando a mexer com o computador. Eu queria dormir, mas a cachorra não me deixava. E eu ligava o computador. Mas, quando ela percebia que eu queria desligá-lo, começava a gemer. Aí eu tinha que ligar o computador de novo. Eu escrevia de tudo, passei a limpo uma porção de coisas e, de repente, não tinha mais nada para passar a limpo. Eu dormia de dia e cuidava da cachorrinha à noite, e foi aí que recomecei a escrever. Foi assim que saiu o romance. Quando ela morreu, botei o ponto final. Não escrevi uma linha a mais. O Ruy Castro, uma pessoa muito extrovertida, leu e disse que estava muito bom. Levou para o Luiz Schwarcz, (o editor) da Companhia das Letras, e ele editou o Quase Memória, que teve um bom retorno. Com o dinheiro que ganhei com essa primeira edição, tomei um navio – gosto muito de navios – e levei um notebook. Escrevi O Piano e a Orquestra (1996). Depois me descobri, novamente, num brinquedo. Mas tem uma coisa: não é que eu vá parar de repente. Agora eu não posso, porque tenho vários compromissos. Trabalho muito sob encomenda. Há uma verdadeira demonização de quem escreve sob encomenda. Mas a arte ocidental foi quase toda feita de encomenda. A arte grega, a Renascença. Mozart morreu fazendo uma missa fúnebre de encomenda. Os Sertões foi uma obra encomendada. Coelho Neto e Olavo Bilac escreveram muitos livros – inclusive pornográficos – de encomenda.
(Trecho da entrevista de Carlos Heitor Cony, concedida a José Castello e publicada em O Rascunho).

Tuesday, September 26, 2006

nunca fui bom pra cachorro em aritmética





a solidão de um cão sem dono nos dá uma produnfa dó. mas como será a do gato? multiplicada por suas sete vidas?

Sunday, August 27, 2006

gata em telhado de zinco quente as vezes sim as vezes não bom pra cachorro

listras laranjas* e brancas. olhos azuis de céu de criança. sabe-se lá como chegou a telhado. teria nascido alí, a gata-mãe não soube me dizer. acordei sobressaltado com os miadinhos. lá se foram as telhas da casa de cachorro que nunca cumpriu esta função, a não ser por breves instantes guardar o tsu(tsunami) que como o próprio nome já diz derruba tudo que vê pela frente com a força inocentemente perigosa da primeira idade.

ainda não tem nome. cresce nas telhas infinitamente mais rápida do que o musgo que lhe faz companhia. e como todos nós corre o risco de cair, ainda não tem tentação mas telhado abaixo. de um lado, espera-a, se salvar-se dos grampos de ferro, chão de cimento e mina, uma boxer branca, que a olha como espetinho. em nossa casa, tsu e água, uma dobermann quanticamente imensa, que a estropiarão antes de tocar ao chão.

foi isso que me fez subir. retirei a gata e a mãe, que sempre arisca, nunca me deixou tocá-la, salvo no dia do parto, em que massageei sua barriga. sumiu e apareceu de barriga murcha. onde os filhotes? não deu para descobrir. descobria uma agora.

trouxe-a para dentro de casa em uma caixa de transporte. peralta, a (única) gata da casa, em meio a quinze cães(tsu, águia, moki, pequetita, mini, elétrica, fracote, bolota, mexicana, dayse, ganido, sauna, branca, folks e oncinha) disparou sua crise de ciúmes como um bote mortal.

foi uma tarde inteira e começo de noite até meia-noite, cuidando dos ciúmes de uma e das necessidades de outra. sem solução. teria que soltá-la e a filhota. onde, pergunta e solução sempre difíceis. sabia onde havia nascido a mãe. eu a alimentava desde pequenina. mas lá os humores se transformaram. de casa de anciã bondosa, agora necessariamente acompanhada de empregadas que enxotam todos os gatos com ameaças públicas de " vou dar um fim neles ", agora não mais terreno de proteção.

zanzei meia rua inteira. deixei-á lá mesmo assim. a filhota saiu para a rua. a mãe tentou carregá-la, como fazem os gatos com seus filhotes, carregando-a pelo pescoço, mas parecia não conseguir, aquela bolinha que mais parece novelo de lã, mas pesa , e tigre pequeno, forço, quando desperta e cabaleante descobre a vida que não sabe se será gozada por quanto tempo.

a meia-noite de sábado a rua está movimentada, até racha tem. não vai ter muita chance, penso. e retiro-a da rua. e volto a zanzar, até que a trago de volta, seguida pela mãe que agora sabe tem um aliado. passo mais meia hora sem saber o que fazer. a mãe afasta-se por uns instantes e entra na terceira casa a frente, onde residem uma husky e uma dobermann com cara de poucos amigos. passdo algum tempo a gata mãe ressurge no meu telhado. entendo, meio incrédulo, que aquele é o caminho para chegar ao meu telhado. sigo com a filhota até o meio do caminho e a solto no chão. a mãe, tenta várias vezes sucumbindo ao peso do filhote até que, mais decida, agarra-a com determinação que eu não tive diante da situação e entra casa da dobermann e husky adentro, no momento que de lá saeem broken, seu gato-irmão, que tem tal nome dado por mim por conta do rabo quebrado,e batmanzinho, outro irmão, que seguiu vida a fora, sumindo da área, sem nenhum robin, motivado pelo susto-quase-morte que águia lhe deu lá no jardim quando só não o mastigou por obediência ao grito da minha mulher.

volto para casa, confesso, decepcionado. mal chego, escuto miados no telhado. lá estão a gata-mãe e a filhota. compreendo que lá e o seu lugar. compreensão mais fortemente confirmada, quando vejo que ela na manhã seguinte a retira de dentro do estuque, apesar das dificuldades, onde a abriga a noite da friagem ou chuva e de onde a retira quando o dia amanhece, imagino por conta do calor e das necessidades da filhota levar sol.

hoje a filhota passou o dia no telhado entre sono profundo e os cuidados da mãe que de vez em quando ausenta-se para cuidar de outras necessidades.

por enquanto filhota, apesar dos olhos abertos, mal anda. mas vai crescer, e como em todo crescimento implica enfrentamento de perigos e dificuldades, quanto mais forte, mais se aventurará para as bordas do telhado, valorizando ou desperdiçando sua vida ao tempo que atemorizando a minha.

mas não há outro caminho, ensina-me mãe e filha, já que não tenho como abrigá-la dentro de casa tento me justificar, já que isso significaria a morte em vida para a peralta, além dos sobressaltos constantes com parte dos cachorros que não aceita gatos de jeito-maneira.

gata e filhota ensinam-me que não está na minha mão as suas vidas, se a elas não me dedico por inteiro a construir-lhes outro pouso que não este telhado.

neste e em muitos outros casos,o acaso e a necessidade comandam a vida e a morte, fenômeno que alguns preferem chamar de deus. sobreviverá, cairá, de que lado? quem saberá?

fato é, que o homem, se não convence como filho de deus, tampouco jamais poderia sê-lo, por melhor que seja sua boa vontade. além disso, como ser um deus que da mesma maneira transforma telhas em abrigo e em trampolim para a morte? desdigo dos altos e baixos daquilo que seriam minhas ripas de pensamento que tentam construir o telhado sempre gotejado pela impossibilidade de alcançar a perfeição e a salvação dos animais que me são tão caros.

* foto meramente sugestiva.

Saturday, April 08, 2006

zezinho: um "manezinho" bom pra cachorro

"você é responsavel por tudo aquilo que cativa".

a citação nos fazia rir debochadamente. tempos da ditadura, tempos das misses, que indefectivelmente citavam le petit prince(oui, muitas delas em francês), do antoine de saint-exupery, como seu livro de cabeceira.

não sei quantas delas ou quantos de nós realmente leu o livro. brasil é assim. é o país onde se gosta ou não se gosta de um livro, de um fime, de uma peça, sem o ler, ver ou assistir. mas o fato, impensável, é que, imagine, se alguns de nós, tipos engages, ia lá ler um livro meloso daqueles ? livro de miss? alguns, até durões, talvez, mas no disfarçe.

não sei quem, presenteou-me com um exemplar do pequeno príncipe, anos 60, acho, num formato simpático de caderneta de endereços, capa dura, e umas ilustrações do principezinho louro, que de vez em quando punham-me a matutar, principalmente aquelas, dele sobre planetas, em sua solidão. tempos mais tarde, adquiri num sebo uma edição em francês, sem a graça desta, mas ainda imbuído de um ligeiro deboche.

zezinho, mas é como se fosse manezinho, manezinho é quem nasce na ilha de florianópolis, não sei se você sabe? é o nome que dei a um bichano que apareceu cá por estes dias. pra não parecer provocação aos manés - aqui também mané tem a conotação de otário, trouxa, comumente definido como bocó - uma forma carinhosa presente na ambiguidade dos diminutivos. zezinho é um quase gato de rua, que após uma briga ou uma investida sexual que durou toda a noite, devidamente acompanhada da algazarra que só os felinos sabem fazer, quedou-se ante a porta na manhã seguinte, coro estropiado e uma coriza crônica.

não seria eu que, estando de passagem, ainda mais na casa dos outros, não me conhecesse neste tópico - sempre digo para mim mesmo que não vou mais apanhar animais de rua, e já tenho 14 cachorros, uma gata, e quase meia a dúzia mais, já que os alimento diariamente. quer dizer, agora minha mulher o faz, enquanto estou ausente, com se não bastasse um histórico de ter muitos mais animais - que o alimentaria de esperanças. mas os donos da casa, muito embora não o quisessem, de certa forma o fizeram. comidinha aqui, água ali, zezinho foi tomando conta.

tomando conta fiquei eu. um mucolin pediátrico para os brônquios e seus mucos, um antibiótico que se faz necessário porque a coriza anda renitente, uma pacote de whyskas que confirmou que sim, ele já teve casa, e já comeu ração, tamanha excitação só de ver a embalagem.

zezinho foi conquistando espaço na casa e já na minha vida, sendo a sua maior conquista a permissão, que não foi logicamente dada por mim, de subir e refestelar-se no sofá. não fosse o clima, já teria lhe dado um banho, o que não o impede de roçar-me a barba - finalmente alguém que gostou da minha barba - o que descobri após um cochilo no tal sofá, devidamente acompanhado por zezinho que deitado sobre o meu peito, ninou-me com seu ronronado para depois acordar-me aos quase beijos. e assim, firmou-se um ritual, que já completa mais de uma semana.

mas toda história tem um fim. e o fim para o zezinho, será ficar sem mim. e sem a casa, já que os donos também vão partir para outra e mesmo sendo mais ampla não contemplam a possibilidade de vê-la com mais um morador. nestes dias de procura e espera, zezinho tem me acompanhado, contrariando a falsa noção de que os gatos são " interesseiros" e que só nos procuram na hora da alimentação. zezinho é um cão de guarda fiel. interessa-lhe estar junto e vejo nos seus olhos que nada mais espera do que a companhia do que sabe ele faz-lhe bem. e nos fazemos bem um para o outro como só nossos olhos e nosso peito sabe avaliar.

a não mais de uma semana de partir, hesito agora em deixar-lhe subir o peito e aproveitar este convívio o mais que possa. ao tempo que fico entre as duas crueldades; decepar agora a nossa relação, antecipando-lhe, e a mim, o vazio, pra lá de existencial, que sabe-se lá como será preenchido ou envolver-me o mais profundamente nestes "últimos dias de pompéia " , talvez como se fossemos thelma e louise até o buraco final ?

ontem estive numa livraria e não achei o antoine. e lembrei-me do meu sorriso debochado a desdenhar de mim próprio.

sendo uma história de aviador, eu não consigo, mesmo no fundo sabendo que posso, terminá-la achando um lugar para zezinho no meu avião. o que me recorda das muitas vezes em que intrigado já vi gatos olhando para o céu a procura do ronco daqueles pássaros que tenho dúvidas se não sabem eles levam gentes sem nada na mão.

Sunday, March 05, 2006

tristezas de um homem feliz ou vice-versa de ser bom pra cachorro

como se fosse princesinha



morador da metrópole acordo as quatro e meia. não tenho radinho de pilha nem galo no quintal. de vez em quando, um bem-te-vi me pilha no sono o sonho de outros quintais.


infalivelmente, no entanto, princesinha, gata de rua, que já pensei chamar de penélope, tamanho dengo e charme que traz no rabo flocado e no movimento de cabeça agradecido ao encaixe dos meus dedos sobre sua cabeça, e de quem cuidei invariavelmente por meses à fio, desde os primeiros da sua curta vida, acorda-me com modulações raras de ser ver em felinos, fantasio, tornando-se o meu galo de estimação que irrompe as madrugadas

insistentemente, mas nunca a ponto de me chatear, faz-me sentir importante nestes dias em que viver não o tem sido, resmungo, intolerante que ando com humanos cada vez mais.

vocalise nata, princesinha guarda sempre uma modulação a mais. lembra quase um "thank you em caixa leslie”, quando coloco sua ração por baixo do portão que ela ávida pateia por entre a quase fímbria de espaço antes do crocs e creques ávidos da minha presença. no quase minuto que ouço seus miados a romper em suíte os ligamentos do meu sono, por vezes titubeei entre dormir mais um pouco e atender seu pedido que traduz, mais do que comida, o quase abre-te sésamo do portão para os primeiros afagos do dia, a despeito de águia, a dobermann, cujo focinho tem quase o tamanho da gata e que tudo acompanha com o interesse da tenra idade dos cachorros grandes no tamanho mais ainda pequenos de verdade.

mais do que rotina, ser acordado por princesinha, me era tão importante quanto fazer um grande anúncio.

amanhã, ainda que o sol irrompa, o bem-te-vi cante, e a troupe que inclui margarida a mãe, saci e batmanzinho, irmãos e demais sobrinhos de princesinha, átomo e neôa, cumpram o ritual do nosso encontro diário, repleto de cambalhotas, lambidas e orelhas em riste aos ronronados, meu dia será triste. tal como um roteiro que tinha tudo para dar uma boa campanha e foi estragado por intromissões alheias à sua realização. pois encontrei hoje princesinha morta. não mais que quinze minutos após a ter alimentado a tarde, hora de calor que antecipava a chuva em lágrima do mais tarde.

junto a quina do meio-fio. duas casas após. o meu galo de todas as manhãs tinha os olhos semi-cerrados e o ventre empapaçado. provavelmente resultante do petardo de algum automóvel contra seu corpo quase pena e lépido, que se movia com a alegria de quem quase cantava por me saber vindo já há mais de vinte metros de distância quando a rua dobrava.

madrugadas posteriores serão mais vazias do que as manhãs de quem não tem galos para acordar. ainda mais porque hoje eu não abri o portão para princesinha.

(originalmente publicado no cemgrauscelsius.blogspot.com)